Estou internada num manicómio.
Todos dizem coisas incoerentes e sem sentido, mas não mais sem sentido que a
minha dúvida, a minha tristeza, o meu desespero em não saber o que desejo para
o futuro.
Estou cansada, não sei se
aguento. Este cansaço come-me a alma, o coração, o espírito. Queria acordar
amanhã e sentir que isto vale a pena, que vale a pena lutar nem que seja pela
minha família.
Alguém me deu uma segunda
oportunidade de viver. Não sei como será essa vida. Neste momento não vivo por
mim, vivo pelos outros, mas tenho de conseguir ser feliz e lutar. Lutar pela
vida, lutar pelo amor, lutar por recuperar quem eu não sei que sou, lutar por
mim, por me recuperar, por me reconstruir, por voltar a olhar ao espelho e
reconhecer-me.
Não sei quem sou, o quero fazer,
se há um futuro à minha frente. Não sei se amanhã será melhor que hoje, não sei
se me sentirei sozinha, não sei qual o propósito desta solução, deste milagre,
desta sobrevivência.
Devia ter morrido, o meu coração
devia ter parado por completo, mas não parou. Não sei o que diga acerca desta
oportunidade ou deste infortúnio. Sorte ou azar, ainda não decidi. Sei que foi
um milagre ou uma maldição.
Queria ter força para lutar, mas
não sei quanta força me resta para sobreviver, não sei se esta luta está à
minha altura. Não consigo fazer promessas. Não prometo nada a ninguém. Esta
tristeza e este sofrimento incapacitantes que me impedem de ver o mundo pelos
olhos dos outros. Sinto que sou amada mas não sei se sou capaz de retribuir.
Sinto e não sinto. Sinto estar
viva, consciente do mundo mas ainda me assombra a minha dimensão. Não sei se
consigo lidar com a pressão de voltar a viver, sozinha, numa cidade grande, sem
espaço, claustrofóbica, desesperada.
Relativizaram o meu sofrimento, a
minha vida, mas ninguém pode saber quanto sofrimento existe dentro de mim,
quanta tristeza carrego comigo.
Palavras sábias ouço-as de todos
os supostos “malucos”, experiências de vida, viagens distintas. Comovo-me pela
primeira vez ao reconhecer a humanidade. A humanidade na loucura, na doença, no
desespero, a humanidade no sofrimento.
Tudo isto me assombra, me assola,
nunca tinha visto este mundo. E eu estou entre eles, ajudamo-nos
independentemente de sermos velhos ou novos. È uma experiência que não posso
apagar do meu coração, que deixa marcas profundas. Lidar de perto com aqueles
que sofrem, a angústia que me consome, os olhares, os incentivos dos colegas de
luta.
As folhas caem lá fora e no meu
coração um plano tem de começar a traçar-se. Um plano feito de tudo o que não
encontrei ainda, não sonhei, não descobri.
Tenho medo de viver. Tanto medo
de viver. Preciso de esperança e não sei onde a encontrar. A morte ainda está
presente nos meus pensamentos mas não sei se deva lutar para a combater ou
sucumbir à sua sedução.
Não basta ter força, é preciso
construí-la a partir de algo que eu não possuo ou não encontro. Não morri. O
meu coração não parou. Não fiquei inconsciente e durante todo aquele tempo
apenas flutuava num mar de tristeza e desespero.
Queria voltar a ser eu mas não
sei quem sou, o que espero da vida, o que me tornarei.
Hoje ficarei sozinha. Uma vez
mais. A família vai e não sei se volta a tempo de me encontrar inteira
consciente.