Estava um dia de sol de Outono
reluzente. A casa estava tranquila. Apenas a empregada limpava. O meu pai tinha
saído por instantes. Falei com ele ao telefone assim como com a minha mãe. Mas
as cartas de despedida já estavam escritas, o plano de funeral pronto, os bens
divididos. Passei a tarde a tratar dessas questões que já há muito estavam
decididas no meu íntimo.
Não sentia nada. Apenas que ia
cumprir o meu destino. Tomar conta da minha vida, escolhendo morrer. Assim
teria controlo, a dor desapareceria. A dor… A dor insuportável que já nem
transparecia. Já não conseguia chorar. Nada me emocionava. Uns dias antes tinha
visitado a campa do meu avô. Pedi-lhe que me perdoasse caso avançasse com os
meus planos de suicídio. Pedi-lhe um sinal caso não fosse a morte o meu
destino. Achei que me estava a colocar nas mãos de um Deus, um qualquer Deus.
Assim a escolha não seria inteiramente minha.
Subi para o quarto. Estava calma.
Tinha uma garrafa de whisky, chocolate, uma faca e medicação que sabia ser
fatal. E, de repente, sem pensar, ingeri os comprimidos todos juntamente com a
bebida. Adoçava a boca com chocolate. A dose que tinha tomado era já suficiente
para morrer. Enviei então uma mensagem de despedida ao meu marido e desliguei o
telemóvel.
E depois seguiram-se as súplicas
para abrir a porta, o choro, o desespero. Acabei por ir para o hospital onde
respondi fria e conscientemente o que tinha tomado. Levaram-me numa maca,
gritei e chorei e supliquei para que me deixassem morrer. Não acreditavam ser
possível ter ingerido tal quantidade de comprimidos. Fizeram-me um exame
toxicológico e um electrocardiograma. Estava a morrer. Seguiu-se a lavagem de
estômago e a resignação. Ficaria internada no serviço de observação, com os
sinais vitais monitorizados de meia em meia hora. Vi os meus pais e o meu
marido nesse dia. Não me lembro do que me disseram ou do que lhes disse. Essa
noite médicos e enfermeiros acreditaram em vários momentos não ser possível
salvarem-me. Não me apercebi. Estava simplesmente apática. Não resistia nem
colaborava. Deixava que fizessem o seu trabalho. Na segunda noite o mesmo. A
tensão a baixar, o coração a parar. E eu sem perceber. De meia em meia hora
vinha o enfermeiro. Agradecia sempre. Soube no segundo dia que iria ficar
internada no dia seguinte na unidade psiquiátrica.
E chegou finalmente, ao final da
tarde do dia 4 de Novembro o momento de ser transportada, na parte de trás de
uma ambulância, para a unidade psiquiátrica onde me aguardavam os meus pais e o
meu marido. Envergava apenas uma camisa de noite e uns chinelos de quarto.
Tinha ambos os braços com saídas intravenosas. Não tomava banho há 3 dias.
Cheguei e parecia ter finalmente
transposto as portas do inferno. Sem medicação para a depressão e ansiedade há mais
de 3 dias. O edifício a cheirar a podre. Os “malucos” nas escadas a olharem
para mim. Os meus pais e o meu marido a sorrirem mas com lágrimas de emoção
contidas.
Dentro do edifício mostraram-me o
meu quarto. Parecido com um estabelecimento prisional pensei então. E o cheiro.
O cheiro… Depois da crise de choro veio a serenidade. Pedi para tomar banho.
Olhei para mim própria e decidi ali mesmo dar uma oportunidade à cura. Tinha
medo de tudo e tudo me parecia estranho, distante. Eu não pertencia ali. Aquelas
pessoas eram malucas. Eu estava num manicómio. Essa noite não dormi. Nem com
uma injecção.
Na manhã seguinte depois de
encontrar alguém, também com uma depressão, que me ajudou a adaptar-me às
regras e rotinas do local fui conhecer o meu médico. Gostei dele. Senti-me
segura, mudou-me a medicação, disse-me que não lhe competia julgar-me e que
estava ali para me ajudar a fazer a escolha da vida. Era pragmático. Empático.
Tratou-me como uma pessoa com uma doença grave e não como uma suicida que já
não merece respeito ou o privilégio de ser ouvida. Disse-lhe que não me
arrependia. Que se me continuasse a sentir assim, a morte seria sempre uma
opção. Fui honesta, mas decidi, ao mesmo tempo, dar uma oportunidade ao
internamento e à medicação.
Esse dia disse aos meus pais e ao
meu marido que estava disposta a tentar ficar ali. Naquele sítio escuro, sem
meios, sem condições, mas com recursos humanos extraordinários, tal como vim a
descobrir ao longo dos dois meses que lá me encontrei.
Não sei se ler isto me fez doer menos o peito do que uma facada.
ResponderEliminarAinda bem que deste uma segunda oportunidade a ti mesma.