segunda-feira, 8 de abril de 2013

Desejos

Tristeza, desânimo, cansaço, ansiedade… Trocava tudo por uns dias longe do mundo a dormir num sítio qualquer sem problemas, exigências, objetivos. Trocava tudo o que tenho (que também não é assim tanto…) por paz de espírito e uma alma nova pronta a caminhar por esses roteiros escondidos que não consigo encontrar. Silêncio, ser capaz de ouvir o silêncio sem ensurdecer. Ser capaz de estar em silêncio sem enlouquecer. Ser capaz de olhar para mim ao espelho sem nojo ou angústia. Ser capaz de olhar ao espelho e reconhecer quem sou. Receber ajuda. Ser capaz de receber toda a ajuda de braços abertos sem resistências ou medos. Não ter medo de atravessar. Fronteiras. Mundos. Fases da vida. Ter coragem para recomeçar. Olhar bem fundo e analisar a fonte de tudo isto e conseguir pela primeira vez ver a luz de uma lenta recuperação. Que sejam estes os meus desejos para o ano que já começou no calendário mas cujo início para mim teima em arrancar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Aprender que os nossos problemas do presente resultam afinal de traumas mal resolvidos do passado não deixa para mim de ser uma surpresa. Vou progressivamente ganhando um maior conhecimento sobre as causas da minha doença e dos meus pensamentos mas ainda há um grande caminho a percorrer. E mergulhar nas profundezas de quem sou e das minhas experiências é afinal uma experiência dolorosa que eu queria a todo o custo evitar. Tenho algumas opções em aberto mas não sei que direção tomar. Estou à espera de um rumo. Sei que devia começar por algum lado. Por coisas pequenas. Mas não estou a conseguir e por isso sinto que não presto. Que não valho nada. Preciso de inverter este ciclo, esta tendência. Preciso de algum incentivo para a mudança.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Estou tão cansada, tão exausta desta vida. Só queria conseguir seguir em frente ou cumprir alguns dos objetivos a que me propus mas nem isso consigo. Detesto quem sou, só queria transformar-me numa outra pessoa. E nem sequer me consigo mobilizar para isso. Não me consigo mobilizar para nada. Só sei que continuo a sofrer. Muito. E a dor parece cada vez maior. Parece intransponível. Não consigo despertar para outro mundo. Não tenho prazer nas atividades diárias. Só me apetece ficar na cama o dia todo. Sossegada com os meus pensamentos. Sinto-me doente. Verdadeiramente doente. Mas a minha dor e a minha doença não são visíveis para os outros. Continuo neste mundo não sei bem por quê ou para quê. Queria viver uma vida normal. Não sei por que não me sinto melhor. Tento trabalhar mas tudo me parece uma tarefa gigantesca e sem fim. Só me apetece desistir.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Renascer

Sinto que me foi novamente dada uma oportunidade para viver. O meu corpo ajusta-se bem demais às torturas a que o submeto. É resistente. Muito mais do que eu poderia imaginar. Mas sei que nem sempre será assim e que é preciso lutar para vencer esta batalha de mim contra mim própria. De deixar repousar estes pensamentos autodestrutivos e de aprender a gerir as minhas emoções e pensamentos, por mais absurdos ou revoltantes que estes possam parecer. Preciso de aprender a desiludir-me, ou seja a deixar as minhas desilusões de parte. E urge gerir as expetativas em relação à doença e em relação a mim própria. Foram estes os guias que me foram dados para aumentar o meu insight sobre a minha presente situação. Tenho dificuldades relacionais, tenho uma doença, tenho expetativas irrealistas e tenho tendência a punir-me, a castigar-me por não me encaixar nos meus ideais de perfeição. E é esse caminho de autoabsolvição que eu tenho de trabalhar. Aprender a perdoar-me por não ser perfeita, aprender a perdoar-me por estar doente, aprender a perdoar-me por sentir raiva contra mim própria. Aprender. E lidar com o impulso e com estes pensamentos invasivos como parte daquilo que sou de momento mas não daquilo que vou e quero ser. Aprender a não ceder. A não me comprometer. A procurar ajuda. Espero conseguir desta vez. Espero por um renascimento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Saudades de mim

Tenho saudades de mim. Tantas saudades daquela rapariga que acreditava na vida e no futuro, que sabia onde queria ir, o que queria fazer, que amava sem receio, que gostava de viver. Tenho saudades de ser assim. Livre. Tenho saudades de me reconhecer ao espelho. Tenho saudades de acreditar. De ver o mundo a cores. De acreditar na vida. Porque de momento o futuro é negro e negros são os meus pensamentos e os meus sentimentos. Já nem consigo chorar. A dor é tanta que ultrapassa aquilo que sou e que quero ser. A dor é tanta que me impede de viver. Sobrevivo apenas. Na esperança porém de um dia me voltar a reconhecer, de voltar a ser eu. Na esperança porém de que a negritude do meu olhar se transforme em esperança de um futuro melhor. Estou farta de sofrer. Farta desta dor.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Pequeno mundo

Neste momento é como se eu tivesse tido duas vidas. Antes da doença e após a doença. E olhar para o passado é extremamente difícil. Não me reconheço nas fotografias antigas, naquilo que escrevi, naquilo que sonhei. E, ainda assim, sinto que aquela pessoa também faz parte integrante de quem eu sou. Esta nova personagem que surgiu no contexto da doença pode parecer fraca, pouco participativa no seu próprio destino mas é essencialmente humana. Falha, cai, recomeça, desiste. Todas as contradições do mundo fazem parte de quem é mas encontra-se nela uma força oculta, invisível para muitos, mas que consiste na luta  ativa contra a doença. Uma luta acérrima, em que todas as armas são utilizadas, uma luta muitas vezes inglória pela sua aparente insignificância. E quando parece que se está  a fazer pouco é preciso olhar de novo e ver os sentimentos que foram dominados, o levantar da cama de manhã, o tentar olhar para o mundo de uma outra forma. É preciso dar valor ao (pouco) que foi feito pela sua significância. A verdade é que há bem pouco tempo não passava um minuto do meu dia sozinha, dependia dos outros para tudo, vivia isolada do mundo e hoje consigo levantar-me para trabalhar na maior parte dos dias, consigo ler um livro, ter uma conversa, ter um plano. E embora tudo isto possa parecer insignificante eu tenho de o valorizar se quero continuar inteira e prosperar. Muito há a fazer. Mas eu tenho de considerar que aquilo que consigo dar de momento é de alguma forma suficiente. Que aquilo que eu sou chega para ser amada e respeitada pelos outros. Que independentemente das minhas conquistas futuras já cheguei longe no meu pequeno mundo.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Caminho

Tudo começou devagar. Os dias começaram a custar a passar. Os acordares tornaram-se mais difíceis. Os regressos a casa eram carregados de cansaço, desânimo e crises de choro. Pouco a pouco fui perdendo o prazer nas atividades que antes gostava de realizar. Deixei de conseguir realizar as tarefas domésticas, burocráticas, costumeiras. Tinha crises de choro nas aulas, sentia-me deslocada, perdi o sono e o apetite. E como culminar deste processo deixei de conseguir trabalhar. Veio o pedido de ajuda. O recurso aos medicamentes e à terapia. E depois começaram os pensamentos sobre a morte. A apatia. A despersonalização. A incapacidade de sair de casa. E depois tudo se desmoronou. Veio a primeira tentativa de suicídio. O primeiro internamento. As baixas médicas. O desespero. E o caminho foi-se fazendo com muitos recuos e poucos avanços até ao dia de hoje. Já comecei a trabalhar e tive de ficar em casa novamente. Já estive internada muitas outras vezes e fiz inúmeras tentativas de suicídio. Mas a cada recuo tem correspondido mais uma pequena vitória. Mais um dia de trabalho. Mais umas páginas lidas de um livro. Mais um plano projetado. E assim se faz o caminho. Caminhando.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Um dia

E um dia parece que não nos conseguimos mais levantar da cama. Que não nos apetece sair, trabalhar, que não há forças para tratarmos da casa, de nós, das pessoas de quem gostamos. E um dia tudo vira negro, um oceano de mágoa e tristeza e um olhar pleno das incapacidades sentidas, da impotência vivida. E um dia anos de sorrisos e de experiências, de aventuras e de conquistas, transformam-se num mar de vazio. E é esse vazio que vemos a olhar para nós ao espelho, é esse vazio que sentimos cá dentro, é por causa desse vazio que nos impede de conquistar e de nos erguermos que colapsamos e que nos abandonamos a esta doença cruel. Uma doença que transforma tudo o que conhecemos, ansiamos e desejamos. Que transforma quem somos. Que apaga os traços de um caminho até aí efetuado. E só quando nos vemos refletidos nos rostos dos outros nos apercebemos da dimensão da nossa queda, da nossa derrota. A depressão venceu. Perdemos a nossa identidade, sonhos e ilusões. A depressão venceu. Perdemos a nossa vitalidade e o amor pela vida. A depressão venceu. Mas talvez não para sempre. Talvez um dia volte um esgar do nosso olhar, se abra uma fresta da nossa alma, regresse uma parte do nosso sorriso. Talvez um dia voltemos a ser gente. Com sonhos, sem estes medos que atormentam o coração. Talvez um dia. Eu espero por ele.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Serviço nacional de saúde

Um agradecimento. A todos os que tomaram conta de mim. Se preocuparam. Que foram profissionais e dedicados. Que mais uma vez provaram o valor do serviço nacional de saúde. Que demonstraram que não somos apenas números num sistema, que somos pessoas. Pessoas que trabalham em prol da saúde dos outros dando o seu melhor e pessoas doentes e dependentes que encontram nesse espaço os cuidados que necessitam e sobretudo a atitude empática, diligente e eficiente que caracteriza a larguíssima maioria dos médicos, enfermeiros e auxiliares nos hospitais portugueses. E pensar que este serviço é público, imputa custos irrisórios para os utentes e não impõe restrições de acesso. E pensar que querem destruir um sistema assim por motivações economicistas… Que os seguros de saúde têm o seu papel, fundamental, é indesmentível. Mas têm-no enquanto complemento do serviço nacional de saúde e não enquanto seu substituto. Em última instância quando é preciso, independentemente do dinheiro ou estatuto que se tenha, do histórico de doenças pré-existentes ou do número de “sinistros” ocorridos, o serviço nacional de saúde está sempre lá, ao nosso dispor. E vale a pena lutar por isso.

Alguém me ouviu

(Boss Ac)
Não me resta nada, sinto não ter forças para lutar
É como morrer de sede no meio do mar e afogar
Sinto-me isolado com tanta gente à minha volta
Vocês não ouvem o grito da minha revolta
Choro a rir, isto é mais forte do que pensei
Por dentro sou um mendigo que aparenta ser um rei
Não sei do que fujo, a esperança pouca me resta
É triste ser tão novo e já achar que a vida não presta
As pernas tremem, o tempo passa, sinto cansaço
O vento sopra, ao espelho vejo o fracasso
O dia amanhece, algo me diz para ter cuidado
Vagueio sem destino nem sei se estou acordado
O sorriso escasseia, hoje a tristeza é rainha
Não sei se a alma existe mas sei que alguém feriu a minha
Às vezes penso se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que diz…
(Mariza)
Chorei,
Mas não sei se alguém me ouviu
Então sei se quem me viu
Sabe a dor que em mim carrego e a angústia que se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo
Busquei
Nas palavras o conforto
Dancei no silêncio morto
E o escuro revelou que em mim a Luz se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo
(Boss Ac)
Não há dia que não pergunte a Deus porque nasci
Eu não pedi, alguém me diga o que faço aqui
Se dependesse de mim teria ficado onde estava
Onde não pensava, não existia e não chorava
Prisioneiro de mim próprio, o meu pior inimigo
Às vezes penso que passo tempo demais comigo
Olho para os lados, não vejo ninguém para me ajudar
Um ombro para me apoiar, um sorriso para me animar
Quem sou eu? Para onde vou? De onde vim?
Alguém me diga, porque, me sinto assim?
Sinto que a culpa é minha mas não sei bem porquê
Sinto lágrimas nos meus olhos mas ninguém as vê
Estou farto de mim, farto daquilo que sou, farto daquilo que penso
Mostrem-me a saída deste abismo imenso
Pergunto-me se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que me diz…
(Mariza)
Chorei
Mas não sei se alguém me ouviu
E não sei se quem me viu
Sabe a dor que em mim carrego e a angústia que se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo...
Busquei,
Nas palavras o conforto
Dancei no silêncio morto
E o escuro revelou que em mim a Luz se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo...
(Boss AC)
Tento não me ir abaixo mas não sou de ferro
Quando penso que tudo vai passar
Parece que mais me enterro
Sinto uma nuvem cinzenta que me acompanha onde estiver
E penso para mim mesmo será que Deus me quer
Será a vida apenas uma corrida prá morte
Cada um com a sua sina, cada um com a sua sorte
Não peço muito, não peço mais do que tenho direito
Olho para trás e analiso tudo o que tenho feito
E mesmo quando errei foi a tentar fazer o bem
Não sei o que é o ódio, não desejo mal a ninguém
Vai surgir um raio de luz no meio da porcaria
Porque até um relógio parado está certo duas vezes por dia
Vou-me aguentando
A esperança é a última a morrer
Neste jogo incerto o resultado não posso prever
E quando penso em desistir por me sentir infeliz
Oiço uma voz dentro de mim que me diz
Mantem-te firme
 
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A hora da partida

Hoje é o dia. Em que tento o meu destino e o ponho nas mãos de outrem. Hoje pode ser o último dia. E quero dizer a todos o que sinto. Sinto que o mundo já não é um lugar para mim. Que podia deixar de respirar e o universo continuava na sua marcha incansável com todos os biliões de seres que o povoam. Sinto-me inútil. Inútil e vazia. Vazia de sentido para a minha vida. Aquilo que eu queria é exatamente aquilo que não posso ter e não sei o que fazer para lidar com isso. Tive muitos anos bons, outros bastante maus, apaixonei-me, tive poucos mas bons amigos, presentes em todas as ocasiões e tive uma família que me amou incondicionalmente. Tive tudo isso e ainda assim não consigo ser feliz. Não consigo enfrentar o mundo e vê-lo a cores. No meu mundo reina a ansiedade e o silêncio. A solidão de um mundo frio e de um futuro sem perspetivas. Tenho muita gente a quem poderia pedir ajuda mas não consigo mais, ninguém me consegue ajudar. E a culpa é necessariamente minha por não saber gerir as minhas expetativas e frustrações, por não saber viver e não conseguir aprender a fazê-lo. Por isso adeus e obrigada. Do fundo do coração.
A Hora da Partida
A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.



Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Abismo

Voltei a mergulhar no mais profundo dos abismos e é tão difícil reerguer-me. Parece que não há objetivos válidos na minha vida. Nada por o qual valha a pena lutar e viver. O simples facto de estar viva, de sobreviver, não acrescenta nada à minha felicidade. Não consigo pura e simplesmente ver as supostas coisas boas que há a viver. Neste momento só consigo sentir aquilo que perdi e a dor enorme de saber que nada voltará a ser igual. A dor de não me reconhecer ao espelho, a dor de não me sentir amada como em tempos fui, a dor de pressentir um futuro cheio de dificuldades, pleno de obrigações e vazio de momentos felizes. Eu sei que deveria tentar encontrar a felicidade noutros lugares, junto da minha família, dos meus amigos. Mas parece que nada é suficiente. Que eu não sou nem nunca serei suficiente para mim própria. E era tão mais simples desaparecer.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Miscelânea

Sinto-me tão mal com a minha imagem. Só queria voltar a ser aquilo que já fui e por outro lado não pareço conseguir disciplinar-me o suficiente para perder peso. Só queria levar uma vida normal mas neste momento a minha vida é tudo menos normal. Vivo com a minha mãe e a minha irmã depois de ter saído de casa há cerca de oito anos e ser perfeitamente independente, tomo imensa medicação e faço psicoterapia com bastante frequência e estou a adaptar-me a um trabalho do qual estive ausente durante mais de dois anos. Entretanto estou separada mas não divorciada, quero ficar boa mas nem sempre consigo cumprir as regras que me são impostas, quero voltar a estudar, sair mais, viajar mais, mudar de país mas não quero perder-me no processo e retroceder ao estado em que já estive anteriormente. Nada disto tem qualquer interesse para quem quer que esteja a ler este blog mas é esta a realidade da minha vida atual. Preciso de linhas orientadoras para o meu futuro e sobretudo preciso de me conformar à minha nova forma de existência, um pouco paradoxal, difícil mas ainda assim aquela  com que posso contar de momento. E é preciso dizer que pelo menos já consigo retirar algum prazer das atividades quotidianas como por exemplo do trabalho e que, nesse campo, a ansiedade tem vindo a diminuir. A minha estratégia nessa área tem sido a da experimentação e da habituação gradual. Vou tentando realizar as tarefas que me são dadas da melhor forma possível e tentando não me comparar com outros colegas. E depois vou ajustando as minhas expetativas às minhas capacidades reais neste momento. Aprendi que não posso fingir que não estive ausente todo este tempo e que a minha carreira não congelou, porque a verdade é que estagnei. Mas de momento estou no ativo e pronta a ter novas responsabilidades e se possível embarcar, com a maior brevidade, em novos projetos que envolvam um maior contacto com o exterior. E é neste contexto que vivo os meus dias, activamente à espera, à procura de novos desafios mas ainda com um pé no passado e nos receios costumeiros.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sol

E depois ouvimos o que temos de ouvir naquele momento. Que o importante é aprender a viver e não a sobreviver. Que há uma luz ao fundo do túnel. Que temos de deixar o plano de contingência e embarcar num plano de vida. Que já conseguimos muito embora aquilo que conseguimos não seja suficiente para uma vida feliz. E assim se passam algumas horas fora dos cobertores e a espreitar pela janela que o sol parece afinal já ter começado a brilhar. E é neste carrossel que se aprende a andar. Caindo e recomeçando. Pausando para respirar e voltando a mergulhar, a fazer novas descobertas

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

E a chuva caiu durante todo o dia e os problemas voltaram todos em catadupa e a única coisa que fui capaz de fazer para me proteger foi enfiar-me na cama e fingir que nunca mais preciso de sair de lá. Dói tanto mas tanto e é tudo tão negro que duvido muito da minha capacidade para voltar a ver a luz. Dizem-me que é preciso continuar a caminhar mas a mim parece-me que esse caminho é só feito de dor e desilusões. Dizem que tudo vai passar mas já lá vão cinco anos e nada passa, tudo piora. Perco cada dia mais um bocadinho de quem sou. Bem sei que tenho tentado ser otimista mas hoje a negritude abunda e o futuro parece feito de promessas vãs e solidão. E para quê sobreviver assim? Não consigo pensar em como sair deste buraco negro, só me queria refugiar para sempre debaixo dos meus cobertores.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Férias

Passar férias sozinha revelou-se melhor do que eu tinha pensado. Descansei da ansiedade constante em que me encontrava nos últimos tempos e pensei apenas no imediato e na satifação que as coisas simples me poderiam fornecer. Como é óbvio senti a falta de ter com quem conversar mas penso que precisava de provar a mim própria que sou capaz de levar uma nova vida. E é nesta nova vida que agora tenho de me concentrar e de me recordar que é possível sentir algo mais do que uma dor profunda e absolutamente avassaladora. Tenho família, amigos (poucos) e conhecidos mas em última instância dependo apenas de mim própria e tenho de aprender a valorizar adequadamente os problemas da minha vida que, comparados com esta doença incapacitante, são agora quase insignificantes. Eu sei que em breve esses mesmos problemas vão voltar para me atormentar e que a ansiedade e a tristeza regressarão. Mas não para sempre.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mudança

Uma depressão, sobretudo numa forma grave, muda muita coisa. Muda a forma como nos vemos a nós e ao mundo. Muda aquilo que sentimos internamente em relação a nós próprios e às nossas capacidades. Muda a relação com amigos e família. Muda aquele que julgámos ser o rumo das nossas vidas. E sobretudo muda o valor que atribuímos às coisas materiais e mundanas, ao trabalho, à educação, à cultura, ao amor. Muda tudo e para sempre. Acordamos lentamente do torpor da depressão e somos diferentes. Não nos reconhecemos e precisamos de tempo para ajustarmos a nossa visão a este novo ser.  Dependente de medicação, a fazer psicoterapia, com ideias desfeitas sobre o que a vida é e deve ser. Um ser perdido e à procura de um rumo para dar à sua nova existência. Não se volta a ser quem se era. Passa-se a ser uma outra personagem à procura de um guião para a sua vida. E é neste trilho em que me encontro e é aqui que devo prosperar. Resta-me reinventar quem sou e sobretudo procurar aceitar os contornos do meu novo ser.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O mundo

Há muitos anos que me desconectei do mundo. Desliguei-me da realidade e passei a viver no meu casulo, isolada da qualquer interferência externa.  Por isso mesmo tinha crises de pânico quando tinha de resolver alguma questão prática ou burocrática. Porque esse contacto envolvia embrenhar-me no mundo e sair de mim mesma entrando na esfera dos outros. Hoje aprendo a sair lentamente da minha esfera e a reconhecer que os outros existem, assim como todo um mundo para mim desconhecido. Começo lentamente a ler um jornal. Ouvir as pessoas no comboio. Fazer uma chamada telefónica. Saio progressivamente do isolamento máximo em que me encontrava. No entanto, tudo é ainda demasiado avassalador para mim, demasiado grande, demasiado perigoso. Ainda não consigo manter uma conversa que não gire em torno da minha condição ou que não me conduza a ela em pensamento. Os outros permanecem assustadores, conhecem uma realidade maior e mais rica. Não sei de momento elevar-me ao nível em que quero estar enquanto mulher adulta e não enquanto doente. O meu papel de doente está muito impregnado em mim como se de uma segunda pele se tratasse. É preciso fugir dessa imagem e cultivar em mim o gosto e a curiosidade pela vida.

Da magreza e da gordura

No último ano engordei muitíssimo e aumentei alguns tamanhos de roupa. Como é óbvio não fui poupada aos comentários de “estás mais gorda” ou “estás mais forte” e aos olhares de esguelha que queriam dizer isso mesmo. Nunca pensei que o peso viesse a assumir uma dimensão tão essencial na minha vida. Fez com que a minha auto-estima se desmoronasse por completo e impediu-me de me conseguir olhar ao espelho. O peso associado à acne em forma severa fez com que eu deixasse de me reconhecer enquanto mulher e passasse a evitar pensar sequer na minha imagem. Tomei entretanto algumas resoluções como tentar emagrecer e tratar da minha pele mas parece que não há soluções rápidas ou fáceis. Aquilo que foi fruto da medicação e do stress excessivo vai agora custar meses a reparar. E eu não sei se estou ainda preparada para essa cruzada. Já tenho tantas restrições na minha vida que mais restrições me deixam ansiosa e deprimida. Ainda ontem chorei por não poder comer um pedaço de pão. Todos os dias penso em como era simples ser quem uma vez fui. E dói-me ver fotografias do passado e saber quão mais fácil era a minha existência.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Inverno

Gostava tanto de me sentir bem. Bem com o meu corpo, a minha imagem, a minha alma. Mas parece-me tudo tão desnecessariamente difícil. Tento e volto a tentar. Mas apetece-me desistir. Deitar-me a um canto sem mexer, sem esperar, sem desejar. Tento e volto a tentar. Mas a vida não pára e tudo anda depressa demais para mim. Depressa de mais para o meu ritmo ainda tão lento, ainda tão infantil. E é sob as égides deste ritmo e desta vida que eu devo construir uma outra existência. Mas a ansiedade consome-me por dentro e por fora. Não sei mais o que fazer para lidar com ela. Tão poderosa mas aparentemente tão normal para quem como eu está novamente no mundo após um período de ausência prolongada. Já não passeio tanto na escuridão mas a luz ainda não me inunda. O Inverno ocupou a minha vida durante demasiado tempo e aguardo agora a chegada de uma Primavera anunciada. A tristeza ainda reside em mim mas já não abarca todo o meu ser. Consigo olhar pela janela e ver que está sol apesar de ainda não conseguir sentir o seu calor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre o amor

O amor atormenta quem eu sou e quem eu queria ser. Impede-me de respirar, de dormir, de viver. Impede-me de ver a vida com outras cores. Este amor é demasiado avassalador, sombrio, impenetrável. Toca o mais íntimo do meu ser, faz parte de quem eu sou. E não se abandona assim uma parte de quem se é. Adormeço à luz ténue deste amor e acordo na esperança renovada da sua vitalidade. Dizem que é preciso matá-lo, calá-lo, abafá-lo. Mas a sua lembrança permanecerá sempre em mim, como uma tatuagem na minha pele morena, como o aroma que me perfuma, como o sabor do mar numa tarde de verão. E as memórias felizes e as tristes todas se conjugam numa fotografia do meu passado e nos ditames da minha identidade.

Caminhar

Reconstruir uma vida é a tarefa mais difícil que alguma vez tive de desempenhar. É preciso saber o que fazer às memórias, inúmeras memórias de uma vida prévia, é preciso saber gerir expetativas. As expetativas de recuperar aquilo que alguma vez já fomos. E sobretudo é preciso acreditar. Acreditar que é possível, acreditar que o prazer que vamos retirando de pequenas coisas é suficiente para alimentar o sonho de uma vida melhor. Com mais sabor, mais experiências, menos dor. É preciso acreditar que, embora o apelo das trevas continue lá, a vida vai prevalecer. É preciso confiar. Cegamente. Ir sem destino. Caminhar sozinha. E ir lentamente encontrando os outros que vão fazer parte do nosso caminho.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Vontade de chorar e não conseguir. Um aperto no peito, o tremor do corpo, a ânsia de fugir. Para onde… não sei. Sair deste espaço, deste registo, desta vida e começar de novo sem marcas nem sinais. Sem estigmas nem preconceitos. Sem mágoas nem dúvidas. A mente clara, a alma pura, o corpo pronto. Simples. Sem mais dramas ou anseios. Na certeza de encontrar uma réstia de luz e um espaço para me aninhar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Viajar

Vou viajar sozinha. Relaxar no spa e nas piscinas. Ter o quarto só para mim. Aproveitar para ler, ver televisão, comer bem… Vamos ver como corre não ter companhia para toda a experiência mas espero que me ajude a acalmar a minha ansiedade e a reconhecer que é possível retirar prazer destas atividades mesmo estando sozinha. É mais um passo em direção a uma recuperação lenta de uma vida nova e ainda pouco explorada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Futuro

O futuro. O futuro é assustador. Implica fazer escolhas. Escolher viver e seguir em frente. Sinto-me ainda demasiado desamparada para pensar no futuro e consigo apenas centrar-me no presente, no dia-a-dia. Em sobreviver a mais um dia. Mais uma hora. Mais uma tarefa. Todos estes passos confluem para uma corrida sem fim, sem objetivos e sem planos. O que importa é sobreviver. Depois se pensará no que fazer da vida, em retirar prazer das atividades diárias. Depois se pensará no amor, na família, na amizade. Agora pensa-se nos anseios do corpo e da alma e tenta-se cumprir aquilo que nos foi destinado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Solidão acompanhada

É estar no meio de um grupo e sentir-me mais sozinha que nunca e recordar com saudade a vida que, em tempos, vivi. É saber que nunca mais nada será o mesmo. É sentir uma tristeza que trespassa, um desânimo esmagador, um aperto no peito que nada nem ninguém pode curar. São feridas que permanecem, que estão tatuadas na pele. É uma tentativa desesperada de fugir àquilo que se é, de pertencer por um momento a algum lado, a alguém, mas tudo não passa de um ato inútil, de um simples momento de solidão acompanhada.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Uma luz ao fundo do túnel

Para quem nunca viveu uma depressão, penso que a melhor forma de a descrever é como sermos espetadores da vida lá fora e encontrarmo-nos confinados a um pequeno buraco negro, sem perspetivas de algum dia voltarmos a sentir, a ver, a escutar, a saborear. Tudo perde o interesse, tudo se torna acessório, fútil, a dor trespassa quem alguma vez fomos e torna-nos num ser que não reconhecemos. Não há objetivos ou sonhos, apenas o presente conta e esse está carregado de tanta dor que por vezes se torna demasiado avassaladora para a conseguirmos suportar. E então surgem os pensamentos sobre a morte, os planos e por vezes as ações.
Ao fim de dois anos e meio a sofrer com uma depressão severa, de múltiplos internamentos e tentativas de suicídio, e de suspensão da minha atividade profissional, comecei recentemente a trabalhar. Toda a experiência me causa uma angústia imensa mas parece ser necessária para uma recuperação bem sucedida.
Analiso hoje, pela primeira vez, o impacto da minha depressão. Um casamento falhado, dois anos e meio sem trabalhar, duas mudanças de casa, múltiplas hospitalizações, diversos médicos e psicólogos… Esperanças renovadas e traídas, um carrossel emocional sem fim.
Estou ainda a retirar as consequências da minha doença. A aprender a não passar determinados limites, a colocar a vida em primeiro lugar, acima de qualquer teoria de sucesso pessoal ou profissional, a dar-me tempo, tempo e espaço para cair e recuperar. Estou a aprender a não ser o meu maior carrasco, que coloca expetativas irrealistas e ideias de perfeição acima de todos os limites daquilo que é humanamente possível atingir. Estou apenas a aprender… ainda tenho um longo caminho a percorrer e apetece-me, muitas vezes, desistir. Simplesmente deixar de ser. Emigrar para um espaço onde não existam expetativas, frustrações, dor. O espaço de não-ser. Mas teimo em resistir e tento agora redescobrir quem sou. Esta é uma tarefa dura, morosa e ainda sem fim à vista mas é urgente reinventar quem sou para poder voltar a acreditar na vida e no seu valor. Perder peso, cuidar da pele, fazer exercício, conviver, sair, trabalhar… Tantas exigências ainda para quem como eu esteve mergulhada no mais profundo abismo. No entanto é preciso começar. Passo a passo. Sem olhar para trás. Mais do que acreditar que é possível é preciso agir, tomar mesmo as mais insignificantes iniciativas e esperar um dia ter uma vida que dê prazer viver. Voltar a ser feliz.