sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Uma luz ao fundo do túnel

Para quem nunca viveu uma depressão, penso que a melhor forma de a descrever é como sermos espetadores da vida lá fora e encontrarmo-nos confinados a um pequeno buraco negro, sem perspetivas de algum dia voltarmos a sentir, a ver, a escutar, a saborear. Tudo perde o interesse, tudo se torna acessório, fútil, a dor trespassa quem alguma vez fomos e torna-nos num ser que não reconhecemos. Não há objetivos ou sonhos, apenas o presente conta e esse está carregado de tanta dor que por vezes se torna demasiado avassaladora para a conseguirmos suportar. E então surgem os pensamentos sobre a morte, os planos e por vezes as ações.
Ao fim de dois anos e meio a sofrer com uma depressão severa, de múltiplos internamentos e tentativas de suicídio, e de suspensão da minha atividade profissional, comecei recentemente a trabalhar. Toda a experiência me causa uma angústia imensa mas parece ser necessária para uma recuperação bem sucedida.
Analiso hoje, pela primeira vez, o impacto da minha depressão. Um casamento falhado, dois anos e meio sem trabalhar, duas mudanças de casa, múltiplas hospitalizações, diversos médicos e psicólogos… Esperanças renovadas e traídas, um carrossel emocional sem fim.
Estou ainda a retirar as consequências da minha doença. A aprender a não passar determinados limites, a colocar a vida em primeiro lugar, acima de qualquer teoria de sucesso pessoal ou profissional, a dar-me tempo, tempo e espaço para cair e recuperar. Estou a aprender a não ser o meu maior carrasco, que coloca expetativas irrealistas e ideias de perfeição acima de todos os limites daquilo que é humanamente possível atingir. Estou apenas a aprender… ainda tenho um longo caminho a percorrer e apetece-me, muitas vezes, desistir. Simplesmente deixar de ser. Emigrar para um espaço onde não existam expetativas, frustrações, dor. O espaço de não-ser. Mas teimo em resistir e tento agora redescobrir quem sou. Esta é uma tarefa dura, morosa e ainda sem fim à vista mas é urgente reinventar quem sou para poder voltar a acreditar na vida e no seu valor. Perder peso, cuidar da pele, fazer exercício, conviver, sair, trabalhar… Tantas exigências ainda para quem como eu esteve mergulhada no mais profundo abismo. No entanto é preciso começar. Passo a passo. Sem olhar para trás. Mais do que acreditar que é possível é preciso agir, tomar mesmo as mais insignificantes iniciativas e esperar um dia ter uma vida que dê prazer viver. Voltar a ser feliz.

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