segunda-feira, 8 de abril de 2013

Desejos

Tristeza, desânimo, cansaço, ansiedade… Trocava tudo por uns dias longe do mundo a dormir num sítio qualquer sem problemas, exigências, objetivos. Trocava tudo o que tenho (que também não é assim tanto…) por paz de espírito e uma alma nova pronta a caminhar por esses roteiros escondidos que não consigo encontrar. Silêncio, ser capaz de ouvir o silêncio sem ensurdecer. Ser capaz de estar em silêncio sem enlouquecer. Ser capaz de olhar para mim ao espelho sem nojo ou angústia. Ser capaz de olhar ao espelho e reconhecer quem sou. Receber ajuda. Ser capaz de receber toda a ajuda de braços abertos sem resistências ou medos. Não ter medo de atravessar. Fronteiras. Mundos. Fases da vida. Ter coragem para recomeçar. Olhar bem fundo e analisar a fonte de tudo isto e conseguir pela primeira vez ver a luz de uma lenta recuperação. Que sejam estes os meus desejos para o ano que já começou no calendário mas cujo início para mim teima em arrancar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Aprender que os nossos problemas do presente resultam afinal de traumas mal resolvidos do passado não deixa para mim de ser uma surpresa. Vou progressivamente ganhando um maior conhecimento sobre as causas da minha doença e dos meus pensamentos mas ainda há um grande caminho a percorrer. E mergulhar nas profundezas de quem sou e das minhas experiências é afinal uma experiência dolorosa que eu queria a todo o custo evitar. Tenho algumas opções em aberto mas não sei que direção tomar. Estou à espera de um rumo. Sei que devia começar por algum lado. Por coisas pequenas. Mas não estou a conseguir e por isso sinto que não presto. Que não valho nada. Preciso de inverter este ciclo, esta tendência. Preciso de algum incentivo para a mudança.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Estou tão cansada, tão exausta desta vida. Só queria conseguir seguir em frente ou cumprir alguns dos objetivos a que me propus mas nem isso consigo. Detesto quem sou, só queria transformar-me numa outra pessoa. E nem sequer me consigo mobilizar para isso. Não me consigo mobilizar para nada. Só sei que continuo a sofrer. Muito. E a dor parece cada vez maior. Parece intransponível. Não consigo despertar para outro mundo. Não tenho prazer nas atividades diárias. Só me apetece ficar na cama o dia todo. Sossegada com os meus pensamentos. Sinto-me doente. Verdadeiramente doente. Mas a minha dor e a minha doença não são visíveis para os outros. Continuo neste mundo não sei bem por quê ou para quê. Queria viver uma vida normal. Não sei por que não me sinto melhor. Tento trabalhar mas tudo me parece uma tarefa gigantesca e sem fim. Só me apetece desistir.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Renascer

Sinto que me foi novamente dada uma oportunidade para viver. O meu corpo ajusta-se bem demais às torturas a que o submeto. É resistente. Muito mais do que eu poderia imaginar. Mas sei que nem sempre será assim e que é preciso lutar para vencer esta batalha de mim contra mim própria. De deixar repousar estes pensamentos autodestrutivos e de aprender a gerir as minhas emoções e pensamentos, por mais absurdos ou revoltantes que estes possam parecer. Preciso de aprender a desiludir-me, ou seja a deixar as minhas desilusões de parte. E urge gerir as expetativas em relação à doença e em relação a mim própria. Foram estes os guias que me foram dados para aumentar o meu insight sobre a minha presente situação. Tenho dificuldades relacionais, tenho uma doença, tenho expetativas irrealistas e tenho tendência a punir-me, a castigar-me por não me encaixar nos meus ideais de perfeição. E é esse caminho de autoabsolvição que eu tenho de trabalhar. Aprender a perdoar-me por não ser perfeita, aprender a perdoar-me por estar doente, aprender a perdoar-me por sentir raiva contra mim própria. Aprender. E lidar com o impulso e com estes pensamentos invasivos como parte daquilo que sou de momento mas não daquilo que vou e quero ser. Aprender a não ceder. A não me comprometer. A procurar ajuda. Espero conseguir desta vez. Espero por um renascimento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Saudades de mim

Tenho saudades de mim. Tantas saudades daquela rapariga que acreditava na vida e no futuro, que sabia onde queria ir, o que queria fazer, que amava sem receio, que gostava de viver. Tenho saudades de ser assim. Livre. Tenho saudades de me reconhecer ao espelho. Tenho saudades de acreditar. De ver o mundo a cores. De acreditar na vida. Porque de momento o futuro é negro e negros são os meus pensamentos e os meus sentimentos. Já nem consigo chorar. A dor é tanta que ultrapassa aquilo que sou e que quero ser. A dor é tanta que me impede de viver. Sobrevivo apenas. Na esperança porém de um dia me voltar a reconhecer, de voltar a ser eu. Na esperança porém de que a negritude do meu olhar se transforme em esperança de um futuro melhor. Estou farta de sofrer. Farta desta dor.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Pequeno mundo

Neste momento é como se eu tivesse tido duas vidas. Antes da doença e após a doença. E olhar para o passado é extremamente difícil. Não me reconheço nas fotografias antigas, naquilo que escrevi, naquilo que sonhei. E, ainda assim, sinto que aquela pessoa também faz parte integrante de quem eu sou. Esta nova personagem que surgiu no contexto da doença pode parecer fraca, pouco participativa no seu próprio destino mas é essencialmente humana. Falha, cai, recomeça, desiste. Todas as contradições do mundo fazem parte de quem é mas encontra-se nela uma força oculta, invisível para muitos, mas que consiste na luta  ativa contra a doença. Uma luta acérrima, em que todas as armas são utilizadas, uma luta muitas vezes inglória pela sua aparente insignificância. E quando parece que se está  a fazer pouco é preciso olhar de novo e ver os sentimentos que foram dominados, o levantar da cama de manhã, o tentar olhar para o mundo de uma outra forma. É preciso dar valor ao (pouco) que foi feito pela sua significância. A verdade é que há bem pouco tempo não passava um minuto do meu dia sozinha, dependia dos outros para tudo, vivia isolada do mundo e hoje consigo levantar-me para trabalhar na maior parte dos dias, consigo ler um livro, ter uma conversa, ter um plano. E embora tudo isto possa parecer insignificante eu tenho de o valorizar se quero continuar inteira e prosperar. Muito há a fazer. Mas eu tenho de considerar que aquilo que consigo dar de momento é de alguma forma suficiente. Que aquilo que eu sou chega para ser amada e respeitada pelos outros. Que independentemente das minhas conquistas futuras já cheguei longe no meu pequeno mundo.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Caminho

Tudo começou devagar. Os dias começaram a custar a passar. Os acordares tornaram-se mais difíceis. Os regressos a casa eram carregados de cansaço, desânimo e crises de choro. Pouco a pouco fui perdendo o prazer nas atividades que antes gostava de realizar. Deixei de conseguir realizar as tarefas domésticas, burocráticas, costumeiras. Tinha crises de choro nas aulas, sentia-me deslocada, perdi o sono e o apetite. E como culminar deste processo deixei de conseguir trabalhar. Veio o pedido de ajuda. O recurso aos medicamentes e à terapia. E depois começaram os pensamentos sobre a morte. A apatia. A despersonalização. A incapacidade de sair de casa. E depois tudo se desmoronou. Veio a primeira tentativa de suicídio. O primeiro internamento. As baixas médicas. O desespero. E o caminho foi-se fazendo com muitos recuos e poucos avanços até ao dia de hoje. Já comecei a trabalhar e tive de ficar em casa novamente. Já estive internada muitas outras vezes e fiz inúmeras tentativas de suicídio. Mas a cada recuo tem correspondido mais uma pequena vitória. Mais um dia de trabalho. Mais umas páginas lidas de um livro. Mais um plano projetado. E assim se faz o caminho. Caminhando.