Hoje é o dia. Em que tento o meu destino e o ponho nas mãos de outrem. Hoje pode ser o último dia. E quero dizer a todos o que sinto. Sinto que o mundo já não é um lugar para mim. Que podia deixar de respirar e o universo continuava na sua marcha incansável com todos os biliões de seres que o povoam. Sinto-me inútil. Inútil e vazia. Vazia de sentido para a minha vida. Aquilo que eu queria é exatamente aquilo que não posso ter e não sei o que fazer para lidar com isso. Tive muitos anos bons, outros bastante maus, apaixonei-me, tive poucos mas bons amigos, presentes em todas as ocasiões e tive uma família que me amou incondicionalmente. Tive tudo isso e ainda assim não consigo ser feliz. Não consigo enfrentar o mundo e vê-lo a cores. No meu mundo reina a ansiedade e o silêncio. A solidão de um mundo frio e de um futuro sem perspetivas. Tenho muita gente a quem poderia pedir ajuda mas não consigo mais, ninguém me consegue ajudar. E a culpa é necessariamente minha por não saber gerir as minhas expetativas e frustrações, por não saber viver e não conseguir aprender a fazê-lo. Por isso adeus e obrigada. Do fundo do coração.
A Hora da Partida
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A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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