Uma depressão, sobretudo numa forma grave, muda muita coisa. Muda a forma como nos vemos a nós e ao mundo. Muda aquilo que sentimos internamente em relação a nós próprios e às nossas capacidades. Muda a relação com amigos e família. Muda aquele que julgámos ser o rumo das nossas vidas. E sobretudo muda o valor que atribuímos às coisas materiais e mundanas, ao trabalho, à educação, à cultura, ao amor. Muda tudo e para sempre. Acordamos lentamente do torpor da depressão e somos diferentes. Não nos reconhecemos e precisamos de tempo para ajustarmos a nossa visão a este novo ser. Dependente de medicação, a fazer psicoterapia, com ideias desfeitas sobre o que a vida é e deve ser. Um ser perdido e à procura de um rumo para dar à sua nova existência. Não se volta a ser quem se era. Passa-se a ser uma outra personagem à procura de um guião para a sua vida. E é neste trilho em que me encontro e é aqui que devo prosperar. Resta-me reinventar quem sou e sobretudo procurar aceitar os contornos do meu novo ser.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
O mundo
Há muitos anos que me desconectei do mundo. Desliguei-me da realidade e passei a viver no meu casulo, isolada da qualquer interferência externa. Por isso mesmo tinha crises de pânico quando tinha de resolver alguma questão prática ou burocrática. Porque esse contacto envolvia embrenhar-me no mundo e sair de mim mesma entrando na esfera dos outros. Hoje aprendo a sair lentamente da minha esfera e a reconhecer que os outros existem, assim como todo um mundo para mim desconhecido. Começo lentamente a ler um jornal. Ouvir as pessoas no comboio. Fazer uma chamada telefónica. Saio progressivamente do isolamento máximo em que me encontrava. No entanto, tudo é ainda demasiado avassalador para mim, demasiado grande, demasiado perigoso. Ainda não consigo manter uma conversa que não gire em torno da minha condição ou que não me conduza a ela em pensamento. Os outros permanecem assustadores, conhecem uma realidade maior e mais rica. Não sei de momento elevar-me ao nível em que quero estar enquanto mulher adulta e não enquanto doente. O meu papel de doente está muito impregnado em mim como se de uma segunda pele se tratasse. É preciso fugir dessa imagem e cultivar em mim o gosto e a curiosidade pela vida.
Da magreza e da gordura
No último ano engordei muitíssimo e aumentei alguns tamanhos de roupa. Como é óbvio não fui poupada aos comentários de “estás mais gorda” ou “estás mais forte” e aos olhares de esguelha que queriam dizer isso mesmo. Nunca pensei que o peso viesse a assumir uma dimensão tão essencial na minha vida. Fez com que a minha auto-estima se desmoronasse por completo e impediu-me de me conseguir olhar ao espelho. O peso associado à acne em forma severa fez com que eu deixasse de me reconhecer enquanto mulher e passasse a evitar pensar sequer na minha imagem. Tomei entretanto algumas resoluções como tentar emagrecer e tratar da minha pele mas parece que não há soluções rápidas ou fáceis. Aquilo que foi fruto da medicação e do stress excessivo vai agora custar meses a reparar. E eu não sei se estou ainda preparada para essa cruzada. Já tenho tantas restrições na minha vida que mais restrições me deixam ansiosa e deprimida. Ainda ontem chorei por não poder comer um pedaço de pão. Todos os dias penso em como era simples ser quem uma vez fui. E dói-me ver fotografias do passado e saber quão mais fácil era a minha existência.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Inverno
Gostava tanto de me sentir bem. Bem com o meu corpo, a minha imagem, a minha alma. Mas parece-me tudo tão desnecessariamente difícil. Tento e volto a tentar. Mas apetece-me desistir. Deitar-me a um canto sem mexer, sem esperar, sem desejar. Tento e volto a tentar. Mas a vida não pára e tudo anda depressa demais para mim. Depressa de mais para o meu ritmo ainda tão lento, ainda tão infantil. E é sob as égides deste ritmo e desta vida que eu devo construir uma outra existência. Mas a ansiedade consome-me por dentro e por fora. Não sei mais o que fazer para lidar com ela. Tão poderosa mas aparentemente tão normal para quem como eu está novamente no mundo após um período de ausência prolongada. Já não passeio tanto na escuridão mas a luz ainda não me inunda. O Inverno ocupou a minha vida durante demasiado tempo e aguardo agora a chegada de uma Primavera anunciada. A tristeza ainda reside em mim mas já não abarca todo o meu ser. Consigo olhar pela janela e ver que está sol apesar de ainda não conseguir sentir o seu calor.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Sobre o amor
O amor atormenta quem eu sou e quem eu queria ser. Impede-me de respirar, de dormir, de viver. Impede-me de ver a vida com outras cores. Este amor é demasiado avassalador, sombrio, impenetrável. Toca o mais íntimo do meu ser, faz parte de quem eu sou. E não se abandona assim uma parte de quem se é. Adormeço à luz ténue deste amor e acordo na esperança renovada da sua vitalidade. Dizem que é preciso matá-lo, calá-lo, abafá-lo. Mas a sua lembrança permanecerá sempre em mim, como uma tatuagem na minha pele morena, como o aroma que me perfuma, como o sabor do mar numa tarde de verão. E as memórias felizes e as tristes todas se conjugam numa fotografia do meu passado e nos ditames da minha identidade.
Caminhar
Reconstruir uma vida é a tarefa mais difícil que alguma vez tive de desempenhar. É preciso saber o que fazer às memórias, inúmeras memórias de uma vida prévia, é preciso saber gerir expetativas. As expetativas de recuperar aquilo que alguma vez já fomos. E sobretudo é preciso acreditar. Acreditar que é possível, acreditar que o prazer que vamos retirando de pequenas coisas é suficiente para alimentar o sonho de uma vida melhor. Com mais sabor, mais experiências, menos dor. É preciso acreditar que, embora o apelo das trevas continue lá, a vida vai prevalecer. É preciso confiar. Cegamente. Ir sem destino. Caminhar sozinha. E ir lentamente encontrando os outros que vão fazer parte do nosso caminho.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Vontade de chorar e não conseguir. Um aperto no peito, o tremor do corpo, a ânsia de fugir. Para onde… não sei. Sair deste espaço, deste registo, desta vida e começar de novo sem marcas nem sinais. Sem estigmas nem preconceitos. Sem mágoas nem dúvidas. A mente clara, a alma pura, o corpo pronto. Simples. Sem mais dramas ou anseios. Na certeza de encontrar uma réstia de luz e um espaço para me aninhar.
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