segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre o amor

O amor atormenta quem eu sou e quem eu queria ser. Impede-me de respirar, de dormir, de viver. Impede-me de ver a vida com outras cores. Este amor é demasiado avassalador, sombrio, impenetrável. Toca o mais íntimo do meu ser, faz parte de quem eu sou. E não se abandona assim uma parte de quem se é. Adormeço à luz ténue deste amor e acordo na esperança renovada da sua vitalidade. Dizem que é preciso matá-lo, calá-lo, abafá-lo. Mas a sua lembrança permanecerá sempre em mim, como uma tatuagem na minha pele morena, como o aroma que me perfuma, como o sabor do mar numa tarde de verão. E as memórias felizes e as tristes todas se conjugam numa fotografia do meu passado e nos ditames da minha identidade.

Caminhar

Reconstruir uma vida é a tarefa mais difícil que alguma vez tive de desempenhar. É preciso saber o que fazer às memórias, inúmeras memórias de uma vida prévia, é preciso saber gerir expetativas. As expetativas de recuperar aquilo que alguma vez já fomos. E sobretudo é preciso acreditar. Acreditar que é possível, acreditar que o prazer que vamos retirando de pequenas coisas é suficiente para alimentar o sonho de uma vida melhor. Com mais sabor, mais experiências, menos dor. É preciso acreditar que, embora o apelo das trevas continue lá, a vida vai prevalecer. É preciso confiar. Cegamente. Ir sem destino. Caminhar sozinha. E ir lentamente encontrando os outros que vão fazer parte do nosso caminho.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Vontade de chorar e não conseguir. Um aperto no peito, o tremor do corpo, a ânsia de fugir. Para onde… não sei. Sair deste espaço, deste registo, desta vida e começar de novo sem marcas nem sinais. Sem estigmas nem preconceitos. Sem mágoas nem dúvidas. A mente clara, a alma pura, o corpo pronto. Simples. Sem mais dramas ou anseios. Na certeza de encontrar uma réstia de luz e um espaço para me aninhar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Viajar

Vou viajar sozinha. Relaxar no spa e nas piscinas. Ter o quarto só para mim. Aproveitar para ler, ver televisão, comer bem… Vamos ver como corre não ter companhia para toda a experiência mas espero que me ajude a acalmar a minha ansiedade e a reconhecer que é possível retirar prazer destas atividades mesmo estando sozinha. É mais um passo em direção a uma recuperação lenta de uma vida nova e ainda pouco explorada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Futuro

O futuro. O futuro é assustador. Implica fazer escolhas. Escolher viver e seguir em frente. Sinto-me ainda demasiado desamparada para pensar no futuro e consigo apenas centrar-me no presente, no dia-a-dia. Em sobreviver a mais um dia. Mais uma hora. Mais uma tarefa. Todos estes passos confluem para uma corrida sem fim, sem objetivos e sem planos. O que importa é sobreviver. Depois se pensará no que fazer da vida, em retirar prazer das atividades diárias. Depois se pensará no amor, na família, na amizade. Agora pensa-se nos anseios do corpo e da alma e tenta-se cumprir aquilo que nos foi destinado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Solidão acompanhada

É estar no meio de um grupo e sentir-me mais sozinha que nunca e recordar com saudade a vida que, em tempos, vivi. É saber que nunca mais nada será o mesmo. É sentir uma tristeza que trespassa, um desânimo esmagador, um aperto no peito que nada nem ninguém pode curar. São feridas que permanecem, que estão tatuadas na pele. É uma tentativa desesperada de fugir àquilo que se é, de pertencer por um momento a algum lado, a alguém, mas tudo não passa de um ato inútil, de um simples momento de solidão acompanhada.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Uma luz ao fundo do túnel

Para quem nunca viveu uma depressão, penso que a melhor forma de a descrever é como sermos espetadores da vida lá fora e encontrarmo-nos confinados a um pequeno buraco negro, sem perspetivas de algum dia voltarmos a sentir, a ver, a escutar, a saborear. Tudo perde o interesse, tudo se torna acessório, fútil, a dor trespassa quem alguma vez fomos e torna-nos num ser que não reconhecemos. Não há objetivos ou sonhos, apenas o presente conta e esse está carregado de tanta dor que por vezes se torna demasiado avassaladora para a conseguirmos suportar. E então surgem os pensamentos sobre a morte, os planos e por vezes as ações.
Ao fim de dois anos e meio a sofrer com uma depressão severa, de múltiplos internamentos e tentativas de suicídio, e de suspensão da minha atividade profissional, comecei recentemente a trabalhar. Toda a experiência me causa uma angústia imensa mas parece ser necessária para uma recuperação bem sucedida.
Analiso hoje, pela primeira vez, o impacto da minha depressão. Um casamento falhado, dois anos e meio sem trabalhar, duas mudanças de casa, múltiplas hospitalizações, diversos médicos e psicólogos… Esperanças renovadas e traídas, um carrossel emocional sem fim.
Estou ainda a retirar as consequências da minha doença. A aprender a não passar determinados limites, a colocar a vida em primeiro lugar, acima de qualquer teoria de sucesso pessoal ou profissional, a dar-me tempo, tempo e espaço para cair e recuperar. Estou a aprender a não ser o meu maior carrasco, que coloca expetativas irrealistas e ideias de perfeição acima de todos os limites daquilo que é humanamente possível atingir. Estou apenas a aprender… ainda tenho um longo caminho a percorrer e apetece-me, muitas vezes, desistir. Simplesmente deixar de ser. Emigrar para um espaço onde não existam expetativas, frustrações, dor. O espaço de não-ser. Mas teimo em resistir e tento agora redescobrir quem sou. Esta é uma tarefa dura, morosa e ainda sem fim à vista mas é urgente reinventar quem sou para poder voltar a acreditar na vida e no seu valor. Perder peso, cuidar da pele, fazer exercício, conviver, sair, trabalhar… Tantas exigências ainda para quem como eu esteve mergulhada no mais profundo abismo. No entanto é preciso começar. Passo a passo. Sem olhar para trás. Mais do que acreditar que é possível é preciso agir, tomar mesmo as mais insignificantes iniciativas e esperar um dia ter uma vida que dê prazer viver. Voltar a ser feliz.